sábado, 13 de março de 2010

Prático x Místico na vida missionária

Quem me conhece há um tempo razoável já descobriu que a vida missionária não é feita só de momentos místicos e espirituais. Quem ainda pensa que a vida missionária é totalmente mística/espiritual ainda não começou a me conhecer!

Já disse que para cada missionário pregando/discipulando/ensinando/orando no campo há pelo menos três outros cuidando das coisas práticas para que isso possa acontecer. Posso agora dizer que mesmo aquele que prega/discipula/ensina e ora inevitavelmente passará por fases em que precisará lidar com o dia a dia da logística quase de forma integral! E isso também faz parte de ser missionário!

Um exemplo prático foi essa semana que passou!

Sabendo há algum tempo que minhas carteiras de motorista brasileira e internacional estariam expirando, buscava maneiras de renová-las sem ter que voltar para o Brasil (fora de questão)!
Foi só há uns 10 dias que descobri ser possível trocar a brasileira por uma moçambicana com validade de cinco anos! Eba, mãos à obra!

Segunda passada Dora e eu fomos para Nampula.

Missão: conseguir todos documentos necessários para a troca, consertar algumas coisas no carro e fazer algumas compras para casa e para construção.

Tempo disponível: um dia e meio!

Saída de Nacala 6h da manhã. Chegada a Nampula: 8h. Início das atividades: 8h mesmo!

Manhã toda em escritórios, secretarias, bichas (como chamam as filas aqui) longas e demoradas. Era Dia da Mulher e todas as queridas trabalhadoras estavam na praça para as comemorações, enquanto os pobres homens tentavam fazer o trabalho de três ao mesmo tempo. Fiquei feliz em ver que existia uma fila especial de mulheres, com atendimento preferencial, mas isso não adiantou nada nas longas chamadas para receber de volta documentos autenticados, notariados ou sei lá o que!

Duas horas foi o tempo que algumas chamadas demoravam! Duas horas... tempo suficiente até para conhecer várias das outras centenas de pessoas esperando, conversar sobre política, família, se mulheres deviam trabalhar em orgãos do governo ou não, quem é mais infiel na tribo makua (os homens ou as mulheres) e assim por diante.

O fim das duas horas me encontraram sentada no encosto de um banco de madeira, com uma senhora sentada no banco a minha frente, usando minhas pernas como encosto, minhas costas bronzeadas com o sol esturricante (ou seriam queimadas), faminta e cansadíssima! Enfim as 16h terminamos... todo choro e sensibilização acabados.

É, tem que sensibilizar para conseguir qualquer coisa feita aqui em Moçambique. Devem haver outros métodos, mas é esse o que consigo usar. Vou ao agente de imigração e com cara de dó digo: Por favor, senhor, preciso muito da sua ajuda! Não sei o que farei se você não me ajudar. Deixei meu Dire (Documento de Residência) aqui há uma semana, mas preciso de uma cópia autenticada dele para um documento que vai expirar na semana que vem. Não posso esperar o processo de renovação de vocês. Será que pode encontrá-lo para mim e deixar que eu leve e faça uma cópia autenticada dele e depois traga ele de volta?

Cara feia de volta!

Por favor moço, essa é minha única saída! Não posso fazer mais nada! Prometo que trago ele hoje mesmo!

Espera um pouco, vou encontrar!

Ufa! Mais uma vez a sensibilização funcionou.

Mas isso se repete em cada balcão, em cada escritório, onde se a pessoa do outro lado não for com sua cara seu documento some ou demora um mês, em vez de um dia.

Sensibilização, sensibilização, sensibilização.

Ufa, cansei!

Vamos comer!

Almoçamos, eu e Dora, 16h30, comida indiana! Delícia! Pelo menos isso valeu a pena!

Super esquema para não sermos roubadas na frente do shoprite. Um dia normal de compras do mês.

Mais sensibilização para o guarda do estacionamento do Ideal (outro mercadinho) deixar a gente estacionar dentro, mesmo que já passou da hora permitida, porque deixar o carro do lado de fora essa hora é pedir para não encontrar o retrovisor que restou no meu pobre e abusado carro!

Ufa, mais uma vez a sensibilização funcionou!

Fim de dia, documentos feitos, falta só buscar um de manhã, mas a lista ainda é grande!

Noite de comunhão com nossos colegas de equipe que vivem em Nampula, família Jo! Comunhão tão gostosa que não vemos a hora passar e vamos dormir tardão! Dia seguinte, luta para sair da cama! Ainda assim, vitória. Mais comunhão no café da manhã e combinos sobre o dia. O pastor nos empresta o carro pois o meu ficará no mecânico.

Como costuma acontecer em mecânicos, nada é rápido, nem simples!

O dia vai passando, vamos riscando outras coisas da lista, mas o carro, ainda!

Cancela a aula da tarde porque não vou voltar a tempo!

Buscamos os vidros que pedimos para cortar, mas os queridos não embalaram nada! Como esperam que vamos levar isso para Nacala, outra cidade? O que custa embalar com caixas de papelão velhas? Só viemos nessa loja pq da última vez fizeram um ótimo trabalho e embalaram tudo direitinho! A senhora pensa que vamos voltar aqui de novo depois desse desapontamento. Pode saber que se tem outra loja de vidro em Nampula, vamos achá-la e vocês perdem bons clientes! Ela não importa. E nós lá no fundo sabemos que é muito provável que não haja concorrente, vamos ter que voltar aqui mesmo! O mal de moçambique: um lugar onde a situação ainda é precária, quase tudo é monopólio!

Pegamos os vidros assim mesmo, saímos pelas lojas que nem duas doidinhas pedindo caixas de papelão. Encontramos algumas e lá vamos nós embalar nossos próprios vidros!

Riscamos mais algumas coisas na lista, compra isso para Chris, isso para mãe Nicky, leva esse documento no aeroporto para ser certificado em Maputo e voltar antes da próxima semana!

Ufa, acabamos! E o carro? Ainda!

Já são 16h, não vamos poder voltar para Nacala hoje pois já vai ficar escuro e a estrada está perigosa e nós, muito cansadas. Pastor Armando e Lurdes ficam felizes! Mais uma noite com eles! Nós no fundo também ficamos.

Enfim o carro! O preço é um pouco alto, mas se os problemas estão resolvidos, beleza!

Última noite ali, mais comunhão, próxima madrugada, adeus!

Primeira parada, comprar pimenta (piri-piri) das crianças do lado da estrada! Está muito caro, vamos seguir a viagem!

Que barulho é esse? Não acredito, é o escapamento de novo? Eles não soldaram bem o tubo flexível! E me cobraram tudo aquilo para um serviço terrível? Abro o capô, deixa eu ver a situation!

Não acredito, quebraram uma mangueira do filtro de ar! Se eu não visse isso, de novo meu motor vai pro beleléu! Pronto, amarrando um pano assim, garante que não vai entrar areia até eu chegar em casa!

Chris, tem problema andar com o tubo flexível solto? Não, só os ouvidos!

Sem ar condicionado e um calor escaldante, tem que deixar janelas abertas, mas o barulho e ensurdecedor! Só não é mais alto que os gritos de frustração dentro de mim... o sentimento de ser traída por um mecânico de confiança... a raiva de ter perdido tanto tempo e dinheiro!

Depois que a raiva passa um pouco nos divertimos assustando as pessoas ao lado da estrada acelerando perto delas e fazendo um barulhão! Terrível! Quê qui é isso missionária? Tentando manter a sanidade com um pouco de loucura!

Em casa, inquieta e agitada... reunião da equipe, é bom orar juntos! Estamos orando por essa cidade, essa região, esse país, esse continente (Nigéria, Zimbabwe, Africa do Sul)... quando nos damos conta estamos intercedendo pela volta de Jesus, pelo mundo todo!

Dois dias cheios, escola, emails, casa, construção, reconserto do carro... ajuda a amigos... e assim vai!

Hoje, sábado! Acordo cedo vou arrumar os últimos detalhes do carro num amigo que pediu para ajudar! Como é bom ter amigos! Resolvidos os problemas, para cidade resolver umas questões, comprar algumas coisas para casa e outros da equipe, deixar material de limpeza com empregada de amigos que estão voltando do Brasil, de volta para casa no final da manhã. Arruma isso e aquilo, manda carpinteiros endireitarem tudo o que fizeram torto, vigia trabalho deles a cada 15 minutos para os danos não serem grandes... enfim almoço!

Saindo para reunião de jovens em Muzuane! É, aí a coisa pegou!

Uma tempestade. Ajudo Dora a conter a água que quer entrar por frestras nas portas e janelas. Coloco tudo que quero levar em saquinho ziplock, numa mochila pequena nas costas, capa de chuva e lá vou eu de moto! Ai que delícia, andar de moto na chuva! Um super rally! Tá super divertido!

Até que encontro três homens no caminho estreito no meio das machambas (plantações). Está deserto, só eles e eu. Eu passo pelo meio deles, um deles empurra com força. Eu caio! Eu e a moto. Caio nas minhas costas, em cima da mochila que eles não conseguem ver embaixo da capa!

Os três pulam para cima de mim. Um segura meu pescoço quando eu grito por ajuda. Os outros checam meus bolsos. Não encontram nada! NADA! Tudo está na bolsinha nas costas. Eles todos gritam: Onde está o celular? Onde está o dinheiro?

Está chovendo, não está vendo? Eu saí de casa na chuva, para que trazer celular? – eu fico repetindo. Está chovendo, está chovendo!

De repente dois desistem, seguem o caminho andando. Um ainda desconfiado pergunta: E o dinheiro? Onde está o dinheiro?

Estou indo para igreja, porque ia precisar de dinheiro?

Me levanto, levanto a moto. Eles não queriam a moto?! Por que não levaram a moto? Por que não checaram tudo em mim para ver se não tinha celular na mochila nas costas?

Só pode ser Deus, só pode ser o sangue, só podem ser seus anjos!

Tantas coisas passam pela cabeça, parece que tudo acontece em camera lenta. O que eles vão fazer, o que vão levar, o que vão fazer comigo? O que devo fazer? Ó Deus ajuda!

Mas uma paz sobrenatural, uma paz que me permite levantar, levantar a moto, fazer ela pegar, virar a moto na estrada que mais parece um rio, ir embora com confiança.

Claro que chego na casa de mãe Nicky e desabo chorando no colo dela, mas por fora estou tremendo, por dentro estou em paz.

Não sinto raiva, não quero matá-los, não quero me vingar.

Não sei porque, mas sinto paz. Sei que Ele estava comigo, sei que Ele me guardou e protegeu.

Meu pulso doendo, duas feridas não grandes mas um pouco fundas na perna. Só! Nada mais.

Fazemos boletim de ocorrência na polícia, faço um exame médico e colocam uma faixa no meu pulso. É... alguém não está feliz com minha vida! Mas alguém maior está me vigiando, me guardando, velando por mim!

Quer mais prova de que estamos orando contra as coisas certas? Potestades de violência, roubo, imoralidade que dominam a região. Mas a música volta à minha mente... a música que tem sido tema da minha vida em Nacala, Moçambique:

CAN A NATION BE CHANGED
Matt Redman
Can a Nation be changed?
Can a nation be saved?
Can a nation return back to you?
We're on our knees
We're on our knees again
Let this nation be changed
Let this nation be saved
Let this nation return back to you
We're on our knees
We're on our knees again

E aí? Será que a vida de um missionário é mística/espiritual? Não, ela é prática, é diária, é mãos a obra! Mas ao mesmo tempo cada gesto, cada ação, cada coisa que fazemos tem efeito espiritual e místico! Então, a verdade é que sim, ela é mística/espiritual, mas não da maneira como muitos pensam!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Mais Chuva


Depois da primeira chuva durante a noite, começou a chover com mais frequência.


A primeira vez que choveu muito durante o dia, cumprimos nossa promessa e fomos dançar na chuva!


Eu e Christa dançamos e brincamos durante 2h e até lavamos o cabelo na bica que formou num lado da casa!


Enchemos baldes e mais baldes com água para beber e usar nos próximos dias!
Trabalhamos até! :)





Simona também entrou na festa, mas com cuidado para não ficar doente! :D


Tem chovido continuamente em Inhaminga e as plantações feitas no início de dezembro (últimas chuvas do ano passado) conseguiram se recuperar.


Quem plantou logo no início do tempo chuvoso perdeu tudo!

Alguns tem tentado plantar mandioca e batata doce, que talvez consigam produzir nessa época meio tardia!


Christa tem planos de distribuir comida para as famílias que sofreram mais, para ajudá-las sobreviver esse ano.

Se você tem vontade de ajudar, entre em contato comigo por email (sukanews@yahoo.com).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Chuva


Como diamantes caindo sobre a Terra as gotas caíram ontem a noite!
Tudo começou com poucas gotas, aí um chuviscar constant e finalmente um grande derramar.

Quantas vezes choveu e eu nem me importei! Quantas vezes eu até reclamei quando chovia num momento que eu queria fazer algo fora!

Essa vez foi diferente! Estávamos orando por chuva por dias, semanas e quase meses!

Olhávamos para o céu muitas, muitas vezes por dia esperando ver nuvens. Quando víamos nuvens, esperávamos que se transformassem em gotas! Mas tudo estava seco. A relva estava seca, numa época que deveria estar muito verde! As árvores estavam tristes! Cada tarde víamos as folhas se enrugando por causa da seca. De manhã tinham um aspect melhor e, assim como as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã, nossas esperanças eram renovadas de que aquele seria o dia da chuva!

O humor do povo começou a ser afetado. Não somente por causa do calor insuportável, mas a perspectiva de um ano sem chuva. Numa comunidade onde a comida de uma família depende totalmente do resultado de suas plantações primitivas, irrigadas somente pela chuva, quando a chuva tarde, ou não cai, o resultado é um ano de fome, sofrimente e até morte para muitos.

Hoje foi um dia diferente. Cada trabalhador chegou com um grande sorriso e o ânimo geral estava melhor. Choveu! Chuva representa esperança! Representa vida!

Tínhamos prometido que iríamos dançar na chuva na estrada quando enfim chovesse, mas eu estava num profundo sono quando realmente começou a chover. Christa tentou me acordar, mas eu não ouvi nada! Jeosafá estava acordado e tirou algumas fotos! Quando acordei pela manhã porém, havia neblina para todo lado, o que significava intense humidade, algo diferente do dia anterior e das semanas secas que passaram!

Eu sabia que havia chovido muito, mesmo sem que eu tivesse visto!

Obrigada Deus por sua fidelidade!

Obrigada pelas orações.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

2 Samuel 1.19-27

Tua glória, ó Israel, foi morta sobre os teus altos!
Como caíram os valorosos!

Não o noticieis em Gate,

nem o publiqueis nas ruas de Asquelom;
para que não se alegrem as filhas dos filisteus,
para que não exultem as filhas dos incircuncisos.

Vós, montes de Gilboa,

nem orvalho, nem chuva caia sobre vós,
ó campos de morte;
pois ali desprezivelmente foi arrojado o escudo dos valorosos,
o escudo de Saul, ungido com óleo.

Do sangue dos feridos, da gordura dos valorosos,

nunca recuou o arco de Jônatas,
nem voltou vazia a espada de Saul.

Saul e Jônatas, tão queridos e amáveis na sua vida,

também na sua morte não se separaram;
eram mais ligeiros do que as águias,
mais fortes do que os leões.

Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,

que vos vestia deliciosamente de escarlata,
que vos punha sobre os vestidos adornos de ouro.

Como caíram os valorosos no meio da peleja!

Jônatas nos teus altos foi morto!

Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas;

muito querido me eras!
Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres.

Como caíram os valorosos,

e pereceram as armas de guerra!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Promessa de Deus

Senti essa palavra especificamente antes dos encontros de jovens em Inhaminga. Foi num momento em que uma onda de dúvidas e perguntas tentava nos afogar. Chorávamos por aqueles que estavam caindo, perguntando-nos se tudo estava perdido. Ele nunca falha em falar conosco nesses momentos!

"Assim diz o Senhor: Ouviu-se um clamor em Ramá, lamentação e choro amargo:
Raquel chora a seus filhos, e não se deixa consolar a respeito deles, porque já não existem.
Assim diz o Senhor: Reprime a tua voz do choro, e das lágrimas os teus olhos;
porque há galardão para o teu trabalho, diz o Senhor, e eles voltarão da terra do inimigo.
E há esperança para o teu futuro, diz o Senhor; pois teus filhos voltarão para os seus termos."

Jeremias 31.15-17

Jovens Recrutas em Inhaminga!

Chamados do Reino das Trevas para a Luz!
Com cicatrizes e marcas que nos lembram de onde viemos e para onde nunca voltaremos!
Curados, Sarados e Libertos!
Caminhando na aceitação e autoridade concedidas pela Graça!
Com ousadia e alegria,
Prosseguimos rumo ao destino que nosso general traçou antes mesmo do nosso nascimento!

Preparar o caminho
Vamos!
Acertar o alvo
Vamos!
Trazer Jesus de volta
Vamos!
Juntos
Vamos!
Para Sua Glória
Vamos!
Para o Seu Louvor
Vamos!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Preparando Soldados em Inhaminga

Queridos amigos,

Quero escrever sobre o encontro de jovens que tivemos aqui em Inhaminga no último final de semana e algumas coisinhas a mais.

Deus tem despertado muito forte dentro de mim o chamado para ministrar aos jovens, focalizar mais neles, desenvolver novos projetos e planos para eles. Ele tem restaurado a visão do exército sem face dos últimos dias, os amigos do noivo que vão preparar (e já começaram a preparar) o caminho para a volta triunfante de Jesus. Não sei se é porque o treinamento de professores tem me liberado do trabalho na escola, ou se é por passar tempo com a Simona (q tb tem um fogo dentro dela por essa geração), se é pelo q senti em Israel, ou se o conjunto de todos esses fatores unido a algo que Deus está me chamando para fazer.
Só sei que o resultado é um peso, um clamor muito forte por essa geração. Não mais um grupo de jovens no Brasil, ou os jovens de Moçambique, mas um clamor por essa geração em todo mundo. Quase ouço com meus ouvidos naturais o tocar da trombeta convocando-nos e nem os desapontamentos e frustrações com a realidade que constantemente nos cerca e se apresenta a nós através das falhas humanas podem fazer-me acreditar que esse toque da trombeta não é real e que Deus não está agindo.

Desde novembro tenho viajado com a Simona e alguns jovens moçambicanos em encontros de jovens. Os três que aconteceram em Magiga, Macomia e Nampula, no norte, foram bons mas ainda num nível inicial, um pouco básico. Nossas expectativas estavam altas para esse último final de semana. Seria o primeiro encontro de jovens mais maduros, ou pelo menos discipulados, que conhecem a Palavra e têm recebido atenção intensa há mais de quatro anos. Nesses últimos dois anos, Leidy, Diogo e Jeosafá investiram muito na vida deles. Nesse último ano Jansen uniu-se a eles e à Simona que foi quem começou o trabalho intensivo. E foi desses anos de trabalho que surgiu em nós o sonho de um encontro diferente dos outros. Nem chamamos mais de conferência, pois encontro tem uma conotação diferente. Chamamos de Encontro dos soldados da linha de frente, Preparando soldados para as últimas batalhas, Marcas de um soldado de linha de frente, Levando Deus a Sério... vários nomes para tentar expressar todas as nossas expectativas para esses dias.

Da equipe, só Simona, eu e Patrícia estávamos mais envolvidas em carregar o encontro. Agostinho e outros evangelistas ajudaram, mas mesmo eles não tinham idéia do tamanho das nossas expectativas. Eles faziam parte do nosso alvo, ainda não carregavam nossa visão. O tempo de preparação foi muito difícil. Muitas idéias e poucas mãos para colocar em prática. Eu e Simona trabalhamos todos os dias daquela semana de muito cedo até a noite, às vezes mal parando para comer e lutando com eletrônicos (impressora desobidiente), o calor e especialmente o tempo para terminar tudo. A esperança de ter ajuda de um grupo que viria de Zimbabwe foi frustrada qdo negaram a saída de um deles na fronteira e a equipe cancelou a viagem. E lá fomos nós fazer tudo o que esperávamos que eles fariam. Como sentimos falta dos nossos companheiros!

Jansen, onde vc estava para nos ajudar com a corrida de obstáculos!


Leidy e Diogo, onde vcs estavam para ajudar os jovens coordenar o louvor e as danças?


Jeosafáaaaaaaaaaaaaaaaa, onde vc estava qdo fizemos caderninhos para cada um e passamos toooooodo dia lutando para imprimi-los? E os crachás?


Daena onde vc estava com sua criatividade para fazer as lembrancinhas e a decoração?


Dora, onde vc estava para pensar em tudo o que esquecemos e levar o peso da intercessão?


Eu sei onde vcs estavam! Onde deveriam estar! Mas ó, como sentimos falta de vcs! Eu e Simona nos desdobramos em 10!

Mas graças a Deus, com muitas mãozinhas aqui e ali tudo ficou pronto a tempo!

Mas a dificuldade na preparação não era só física. Durante as semanas anteriores, foi como se os sepulcros fossem abertos e toda podridão e sujeira escondidas foram reveladas! Pecados escondidos vieram a luz, jovens vinham conversar com a Simona quase todos os dias com um problema ou outro. Alguns deles bem sérios!
Ataques vinham à nossa mente... como podemos considerar esses soldados de linha de frente se aquelas coisas que considerávamos vencidas ainda parecem tão vivas quanto há um ano, ou quatro anos? Mas uma diferença sempre vinha à nossa memória... há alguns anos atrás, todas essas coisas aconteciam, mas poucos se importavam com elas. O pecado, a prostituição, a desobediência, o orgulho era considerado normal... ninguém vinha confessar, ou se arrepender dessas coisas. Quando confrontados, demoravam a reconhecer que haviam errado... Hoje são eles mesmos que não conseguem viver com essas coisas em suas vidas e vem correndo pedir ajuda, pq não querem ficar caídos.

Assim, quando os jovens começaram a chegar meu coração só clamava: "Senhor, preparamos tudo! Ordenamos a lenha, amontoamos as pedras... colocamos nossas vidas... agora o fogo é com vc!"
Cada um que recebia seu crachá era alguém conhecido, um rosto com uma história, um passado, um presente e ah, sim! um futuro!!! É tão diferente ter um encontro de pessoas conhecidas, pessoas que estão caminhando juntas há algum tempo e que têm aliança umas com as outras!

Ousamos bastante nesse encontro, com louvor diferente do que temos costume, com músicas diferentes, com palavras em outro nível e com os dias bem cheios das 5h as 21h.
E o resultado... valeu a pena! Sabemos que os frutos nem sempre são manifestos na hora, mas nosso coração terminou satisfeito. Um pouco tristes pois sabíamos que se fôssemos mais a organizar, teria sido melhor, poderíamos ter tido melhores resultados, mas dentro de nossas limitações, sabemos que foi o melhor!

Mesmo em áreas onde não consideramos nosso forte, como fazer a corrida de obstáculos que os jovens passavam todas as manhãs em três grupos, Deus nos deu uma graça sobrenatural mesmo e foi muito, muito bom. Muitos jovens nos falavam como cada obstáculo (que tinha algum significado sobre nossa vida espiritual) fazia-os pensar e o que Deus tinha falado com eles sobre esse ou aquele assunto por causa dessa ou daquela atividade.

Alguns que carregavam certa rebeldia ou orgulho, sozinho conseguiram reconhecer esses problemas em suas vidas e durante as reuniões pediam a Deus que os mudassem e declaravam seu desejo de serem diferentes.

O tempo de adoração foi bom, mas ainda muito limitado, pela dificuldade que nosso grupo de louvor ainda tem de conhecer e saber tocar/cantar músicas diferentes. Mesmo assim creio que foi a primeira vez que vi vários deles em um nível bem diferente dirigindo adoração. Um sonho nasceu em meu coração durante uma das reuniões. Compartilharei esse sonho no devido tempo, mas creio que Deus o realizará.


Os assuntos das Palavras foram variados, mas vou escrever um resumo:


Abertura - Susana - falei sobre a visão do exército que preparará a volta de Jesus, sobre nossa geração (uma das músicas que cantamos muito foi Geração de Samuel) e o chamado para santidade.

1o. dia

manhã - Susana - falei sobre o Sangue e a Cruz (o perdão e a morte para o velho eu), como no livro A vida normal cristã. Eles tiveram várias perguntas e senti que foi um bom tempo.
tarde - Patrícia, Lino e Vina - falaram sobre o propósito de Deus para o casamento, o melhor caminho, a família.
noite - Simona - falou sobre obediência por amor e determinação. Um jovem falou depois o quanto ele sentiu que obedecia a Deus por medo do inferno e não por amor e como Deus o mudou naquela noite.

2o. dia
manhã - Ellie - falou sobre o derramar do Espírito nesses últimos dias, sobre como fluir na unção coletiva, sobre ter unidade em oração e sobre os campos que já estão brancos para a colheita, mas o que devemos é orar por ceifeiros. O problema não é dos campos, duros ou não maduros. Jesus falou que eles estão prontos. O que falta são os trabalhadores. Quando foi a última vez que vc orou para que Deus envie trabalhadores. Foi o que Jesus nos mandou fazer! Foi bem forte e oramos por isso no final. Ellie veio do Zimbabwe só para estar conosco e falar nesse dia. Foi bem especial. A primeira vez que ela compartilha num encontro de jovens e ela estava bem tocada e animada em compartilhar para eles. Ela disse que nunca esperava ver o dia em que roupas de camuflagem seriam penduradas como enfeite, mas que essa geração tem o privilégio de ser uma geração de paz.
tarde - Simo e eu - falamos sobre a vida de solteiro, como podemos usar esse tempo e como vivê-la de forma pura.
noite - Simo - falou sobre missões, o chamado do mundo, os países fechados, a perseguição. Foi muito bom tb!

3o. dia
manhã - Patri - falou sobre a sabedoria de Deus x o que o mundo pensa.
e Mariano - falou sobre sermos feitos do pó, como isso parece ruim, mas como o pó é o único ambiente onde a semente é capaz de crescer.
tarde - Agostinho - falou sobre visão e propósito. Foi muito bom, vários jovens compartilharam o que sentiam que Deus os chamavam para fazer e oramos por isso.
noite - Mariano - falou sobre "quando vcs entrarem na terra, não façam como os povos que vivem ali fazem" - vivendo diferente da cultura dos nossos dias. Foi bem direto, até quase ser um pouco "escrachado" demais para nosso gosto, mas vimos que vários jovens que não entenderiam de outra maneira realmente compreenderam.

Na última manhã, eles correram pela última vez e fizeram tudo certo. Das outras vezes eles falhavam em vários lugares, mas mesmo assim foi bom para aprenderem várias lições.
Por fim, fizemos a premiação da equipe vencedora e encerramos orando por ele.
Era para terminarmos as 9h para que eles pudessem participar do culto nas igrejas, mas começamos a orar por cada um deles e foi muito bom... demoramos até umas 10h30, mas realmente valeu a pena.
Se não tivéssemos esse tempo o encontro não estaria completo. Foi o tempo de selar tudo o que aconteceu nos outros dias, pois no restante do tempo, vários foram tocados, suas mentes mudadas, mas não houve muita coisa mais emocional. Durante essa última manhã, enquanto orávamos e profetizávamos sobre cada um, Deus nos deu várias palavras e muitos que há muito tempo não eram tocados ou estavam passando por tempos difíceis foram realmente tocados por Deus. Creio que foi mesmo um selo sobre o que Deus fez nos dias anteriores. Completou e encerramos muito felizes.
Tb tivemos um tempo para vários testemunharem o que Deus fez na vida deles naqueles dias e ficamos bem encorajadas com a profundidade dos testemunhos, que revelou a profundidade também do que Deus fez.

Simo e eu mal tivemos tempo de engolir tudo o que tinha acontecido e saímos as 11h30 para levar Bene e Simo (filhos do pr. Armando) e Abedenego para Mocuba, onde pr. Armando e Lurdes nos encontraram para recebê-los para o restante do caminho. As crianças tinham vindo de férias com a Simo e Abedenego é um dos jovens de Inhaminga que foi morar com pastor Armando para estudar lá e precisava estar em Nampula na segunda para um teste de admissão. Demos carona para outros que estavam indo para o norte e tivemos boas conversas com eles e depois entre nós duas no caminho de volta. Chegamos em Inhaminga às 10h30, mais uma vez, exaustas e felizes!

Agora estamos nos preparando para o próximo encontro que começa na quinta, para os jovens das igrejas AWY no mato. Cassale, Vina, Santo e Mariano vão estar compartilhando, além de Simo, Patri e eu. O tema é A Vida Cristã Normal e esperamos lançar fundamentos fortes na vida deles.
Obrigada por orarem conosco.