domingo, 18 de maio de 2008

T I A

Novamente aqui estou. Olhando para meus pés e havaianas cheios de poeira, suada, cansada e acima de tudo tensa. O dia foi longo, traduzindo para a equipe médica que atendeu todos os trabalhadores da missão, um atrás do outro. E antes que a agitação do dia amenizasse, tive que correr de novo. Para piorar ainda me lembro do choque na última vez que trouxe alguém para esse hospital, quando de maneira tão abrupta fui informada que a senhora da nossa igreja tinha AIDS. E agora, esperando o resultado do exame da pequenina Hela, eu não quero sofrer o mesmo choque!
O enfermeiro acabou de me chamar para uma outra salinha. Ele não quer que a mãe da menina de 2 anos saiba que teste ele vai fazer em sua filha. Ela vai pensar que é teste de malária, mesmo que ele não fale nada, mas ele quer que eu saiba. Demora 15 minutos para termos o resultado, e por isso estou aqui, olhando para os dedos, evitando as paredes sujas e deprimentes ao meu redor.
São tantos os casos de AIDS e que diferença faria se essa criança também fosse contaminada!? Para mim, muita! A família é uma das primeiras que se converteu em Rassim, a vila do outro lado da bahia que sempre visitamos. A mãe, Muhaxicato, tem crescido muito na fé, é um grande testemunho para a comunidade e temos desenvolvido grande amizade com ela. Se a filha tem... logo a mãe... as outras crianças... Hum, queira Deus que não!
O enfermeiro me chama novamente... eu entro... ele diz: "Só para você saber..." e me aponta o teste: apenas uma linha... NEGATIVO! "Graças a Deus" - eu digo - "Graças a Deus!"
Ele ri... o resultado não representa nada para ele, mas muito para mim!

Muitas coisas me fizeram lembrar a frase de Blood Diamond: "TIA, sir, TIA. It means: This Is Africa".
O enfermeiro, quando foi colher uma gota do sangue da menina que ele pensava ser HIV positivo, SEM LUVA, não se importou quando uma quantidade do sangue lhe correu pelas mãos. Quando mãe e filhas saíram para a sala de espera, eu perguntei: "Como você pode fazer isso sem luvas? E esse sangue que escorreu na sua mão?" Ele respondeu sem preocupação: "Eu não tenho nenhum corte! Se tivesse seria problema, mas assim..." Ele levantou os ombros como quem não se importa. Eu briguei com ele, falando sobre o perigo que corria, e pensei: "TIA"!

Era sábado a noite e estávamos num pronto socorro do hospital... o único lugar onde um atendente de saúde estaria àquela hora. Um pai chegou com a filha, que levara uma pedrada de outra criança. O olho da menina estava inchando a cada minuto e o sangue escorria. Independente da dor da criança, ela teria que esperar na fila, atrás de adultos que não pareciam ter um pingo de dor, comparado a ela. Nenhuma triagem era feita para determinar a ordem dos pacientes... na verdade nem a ordem de chegada seria respeitada se cada um não lutasse por si próprio, pois não havia ninguém controlando o corredor escuro onde todos esperavam. TIA

Enquanto éramos atendidas um jovem chegou trazido por outro senhor. O jovem tinha um pedaço de pano amarrado na cabeça e gritava se contorcendo de dor. Não tenho idéia do que havia acontecido, nem o enfermeiro, mas ele não parecia muito preocupado em descobrir. Terminou de nos atender com calma e quando alguém da família veio pressionar para que ele fosse dar uma olhada no enfermo, que havia deitado numa cama ao lado, ele mandou três comprimidos e disse: "Manda ele tomar, daqui a pouco vou lá." TIA

É, agora voltei para casa, depois de deixar Muhaxicato e Hela na casa do irmão onde passarão a noite e de lá voltarão para Rassim amanhã de manhã! Muito mais cansada do que quando saí, mas ganhei o dia descobrindo uma palavra: Negativo!

Um comentário:

Milipi disse...

Que alegria deve ter sido, não consigo nem imaginar. Jesus é lindo. Deus te abençoe e te guie sempre!